Arquivado em: Fatos | Tags: Banda Catedral, empresa fantasma, espera, fé, fermata, música, medo de silêncio, O silêncio
No meio dos escândalos do Collor e PC Farias, no início dos anos 90, eu inventei de ter medo de empresa fantasma.
Meus pais, que só recentemente entenderam a razão dos meus constantes berros de madrugada, dedicaram, na época, uma das horas de historinha para a leitura do livro Barulhinhos do Silêncio, da Sonia Salerno Forjaz, sobre um menininho que morria de medo dos ruídos amplificados pelo silêncio na calada da noite.
Aos poucos, a historinha e outros didatismos criados pelos meus pais (entre eles, o presente de aprender a orar a noite) espantaram meu medo de empresas fantasmas, sombras em forma de faca e de sonhar com caixão.
Ficou só o medo do silêncio.
Feito de pretenso nada, ele frustra minha tendência de humanizar tudo que me cruza e, ao mesmo tempo, denuncia ruídos de fundo que teimam destoar minha quase harmoniosa melodia.
Nessas horas, o impulso é aumentar o som do mundo para uns mil decibéis. Quem sabe surdo, meu coração abafe ou não se incomode mais com sons difíceis de lidar?
Contra eu mesma, no entanto, estou tentando segurar o botão de volume do mundo e de mim. Talvez, com o Silêncio, eu aprenda a transformar ruídos em melodia.
Arquivado em: Fatos, Literatura | Tags: 39, busca, Deus, murilo mendes, Romanos 8:38
Fórmas brancas de arcanjos que se movem
Em procissões desordenadas dentro de mim,
fóra de mim!
A terra cheia de mulheres tão bonitas
Guarnecendo as ruas, as casas, os cemitérios,
Mulheres feias guarnecendo as ruas e os astros,
Pensamentos escondidos lá onde quasi acaba a lembrança
Anúncios luminosos que o homem fica parado
E esquece de tratar da salvação da alma,
A terra está cheia de pobres necessários ao ritmo divino,
Cheia de amor que chega para todos os homens.
Músicas continuas tocam a manivela nas entranhas do mundo
E o homem elástico de assombração, de músicas, de futuro,
Fabrica maquinas que desviam ele dos pensamentos primários.
Nem a largura nem o comprimento nem a espessura nem o tempo
Não me impedirão de me agarrar num gancho do céu
Porque grandes anjos brancos mexendo dentro de mim e fora de mim
Me dão de vez em quando o desfalecimento único,
Principalmente aquele que vem lá de longe,
Que despenca do Cruzeiro do Sul,
Enorme cheiroso sobre mim.(Murilo Mendes, REZA em Poemas, 1930, p.27)
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Dessa vez, me esforcei para apagar o que de humanizado há em mim. Desacelerei o passo, baixei o volume da minha música. Assoprei cada uma das velas que carrego como amuleto.
Sussurrei pelo Seu silêncio.
entendi. Você já estava ali.
“Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor!” (Romanos 8:38,39)
Os dois novos integrantes da família ainda cabem direitinho no ângulo agudo formado pelo meu cotovelo, braço e antebraço direitos. Mas, eu sei. Logo, logo eles serão tão imensos que minha retina vai ser pequena para medi-los.
O Mateus, com seus quase dois anos, ainda olha pra mim com olhos de quem vê a prima mais linda do mundo. Mas, eu sei. Logo, logo ele vai ter a primeira professora da escolinha.
Antes de ontem eu lamentava ser a quase única menina da família. Ontem eu adorava ter os primos mais gatinhos da igreja. Hoje, não preciso mais inventar brincadeiras suficientemente interessantes para competir com o futebol, nem me preocupar em saber se as meninas querem ser minhas amigas ou se só estão interessadas neles.
A gente cresceu.
E, depois de tantas promessas de que estaríamos presentes nas vidas uns dos outros pra sempre, descobrimos que novos personagens e cenários ocupariam tanto nosso tempo que, de repente, seríamos apenas encontros fortuitos, cumprimentos sorridentes por orkut e conversas corridas no MSN.
É a vida, meus amores, a vida …
… e a saudade, por isso, dividem-se dentro de mim.
Primos no meu primeiro aniversário
Espalhadas na mesa, as lembranças, dessa vez, contudo, não confluíram em melancolia. Talvez eu esteja aprendendo que, embora dolorida e quase sufocante, a saudade é um excelente indicador de que tem valido a pena viver. De que, à sua maneira e no tempo que lhes é permitido, cada pessoa ou momento, que cruzam meu caminho, têm contribuído para a Plenitude em mim …
Saudade é vestígio de sonhos vencidos; um resíduo, por vezes inclemente, de vidas bem vividas (Ricardo Gondim, via Twitter)
Arquivado em: Filmes, Papo | Tags: cinema europeu, Eclesiastes, finitude, futuro, Horas de Verão, morte, Olivier Assayas, vida
Sem qualquer pretensão cult, há algumas semanas, assisti ao filme Horas de Verão, do francês Olivier Assayas. Era dia de promoção na Reserva Cultural e, apesar do coletivo encharcamento de vestidos, meias finas e bolsas, a sala 4 estava lotada. Mas, ninguém se incomodou com o velhinho que não parava de tentar sussurros no ouvido da velhinha dele, duas filas à frente.
Pelo jeito, estavam impressionados com a frase dita por Hélène, a matriarca de uma família de três filhos , na primeira das duas únicas cenas com pouco sol: “Quando morrer, não irei sozinha. Levarei segredos, conhecimento, lembranças. O que ficam são os resíduos …”.
Suspirei.
Vinte e três anos após chegar ao mundo, na reta final da (talvez) primeira faculdade e dando as primeiras engatinhadas na vida adulta de verdade, tenho pensado no que farei dos (longos ou curtos) minutos que se estendem do agora até o ponto final do que é terrestre em mim.
Mas, é difícil decidir-se.
Na berlinda estão em jogo as promessas luminosas de um futuro sob o controle de minhas próprias mãos. Lado a lado com a verdade de que minhas certezas são como vento, que meus tão pequenos olhos ainda não sabem enxergar o horizonte inteiro, de que as coisas a que fortemente me agarro são nada mais que resíduos,
de que eu, Eu mesma sou pó …

Helenè
Decididos o destino dos resíduos de Hélène e a maneira como cada personagem se organizou diante de seu fim, as luzes da sala 4 da Reserva Cultural se acenderam. Sorridente, minha amiga perguntou se eu tinha gostado ou morrido de tédio. Muito gracinha, respondi com mais alguns comentários sobre cinema europeu.
Duas filas à frente, o velhinho e a velhinha, de mãos dadas, saíam leves, quase livres. Eram os únicos que não tentavam fugir da ideia dos resíduos.
“mas, quando pensei em todas as coisas que havia feito e no trabalho que tinha tido para conseguir fazê-las, compreendi que tudo aquilo era ilusão, não tinha nenhum proveito. Era como se eu estivesse correndo atrás do vento“. (Ec 2:11)
“Senhor, ensina-me a contar os meus dias para que eu possa ter um coração sábio” (Sl 90:12)
Por Talita Abrantes
Arquivado em: Fatos | Tags: amor, berimbau, c.s. lewis, Jesus, vinicius de moraes, vulnerável
Sou menina.
Talvez , por isso, desde cedo aprendi a banalizar a palavra Amor. Eu tinha uma boneca e um boneco. A Cinde e o Fofão (não, não era aquele que dava medo). Eram os únicos diferentes entre minhas dezenas de bonecos bebezinhos. Viviam trocando juras de amor.
Confundia esse santo nome, Amor, com finais felizes, completude e rosas. Muitas, muitas rosas. Delicadas e doces. Sem espinhos, obviamente.
Mas, mudei.
Amor está começando a se alojar na brecha que existe entre as palavras Morte e Vida. Exatamente nessa ordem.
Eu sei, nós meninas, aprendemos a nos identificar com aquele confortável movimento egoísta de princesa de conto de fada. Que espera que matem dragões, enforquem bruxas, vençam exércitos apenas por ela. Enquanto, ela mesma desfruta de um amorfo e sem graça sono …
Mas, amorinhos e amorinhas, o Amor exige que nos depertemos dessa sonolência! Pois ele é todo feito de um brusco (e pró-ativo) movimento para fora de si em direção ao outro. De um pular entre abismos. De um vencer a dura estrutura de cada um de nossos poros.
Mas, como dói. Como dói colocar-se nessa corda bamba que é o Amor. Caminho feito de cacos pontiagudos, risco de morte e tanta, tanta incerteza …
Eu sei, a gente, em uma generalizada covardia, se acostumou a colocar tudo sob nosso controle. A nos manter seguros em zonas de falsa paz, rodeados de muros de conforto. Só que o Amor nos chama para fora. E grita tão, tão alto …
… pena que, diariamente, me recuso a ouvir.
“Amar é ser vulnerável” (C.S. Lewis, em Os Quatro Amores)
“Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém” (Vinicius de Moraes, em Berimbau)
“Quem se fecha, não se arrisca, mas a alegria está na rua” (Jorge Camargo)
“O amor dá consentimento a todos e ordena apenas àqueles que consentem. O amor é abdicação. Deus é abdicação.” (Simone Weil)
“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jesus, em João 15:13)
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Sendo cristão, creio que vivemos em mundos paralelos. Um mundo consiste em montanhas, e lagos, e celeiros, e políticos, e pastores guardando seus rebanhos a noite. O outro consiste em anjos e forças sinistras, e, em algum ponto lá fora, lugares que se chamam céu e inferno. Em uma noite fria, escura, entre as enrugadas montanhas de Belém, aqueles dois mundos se juntaram em um ponto impressionante de intersecção. Deus, que não conhece antes ou o depois, entrou no tempo e no espaço. Deus, que não conhece fronteiras, assumiu as limitações chocantes da pele de um nenê, as restrições sinistras da mortalidade.
“Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação”, certo apóstolo escreveu mais tarde; “ Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele”. Mas as poucas testemunhas oculares da noite de Natal não viram nada disso. Viram uma criancinha lutando para usar os pulmões novos em folha …
Philip Yancey, em “O Jesus que eu nunca conheci”, página 47

Semana Jovem IBAB
Começou ontem, 14 de julho. Mas ainda dá tempo de conferir a Semana Jovem da IBAB, que termina sexta, dia 17. O tema? Você tem sede de quê? Você tem fome de quê? - descaradamente baseado na clássica Comida (A. Antunes). Abaixo vídeozinho retrô com participação especial da Marisa Monte.
Arquivado em: Literatura, Uncategorized | Tags: angola, identidade, ondjaki, pós-modernidade
Ao som de Norah Jones e Melody Gardot, terminei hoje de ler Os Da Minha Rua, do angolano Ondjaki.
Contextualizando: Ondjaki é um dos escritores contemporâneos de Angola mais mais. Tem drads na cabeça. Uma pinta do lado esquerdo do rosto bem feito. Trinta e dois anos. Doze livros. Um documentário, Oxalá cresçam pitangas – histórias de Luanda (2006). Ganhou ano passado o Grinzane for Africa Prize, na categoria Jovem Escritor. E, sobretudo, é dono de uma sensibilidade literária de fazer perder o fôlego.
Em Os Da Minha Rua, ele narra a Angola do fim dos anos 80, início dos anos 90, sob os olhos dele mesmo quando criança. Embora carregadas de referências históricas, regionais e pessoais, as estórias do livro trazem um quê de universal. Resumem esse nosso comum e intermitente trajeto rumo a descoberta de quem realmente somos.
Depois de anos debaixo do domínio lusitano, Angola, durante as últimas décadas do século 20, teve que perceber na marra que crise de identidade não era frescura de adolescente. O sincretismo cultural dava o tom das relações em Luanda. Era a novela Roque Santeiro na tevê, os uniformes e akás* soviéticas nas ruas, o Roberto Carlos no rádio, os professores cubanos nas escolas e a coca-cola na mesa. Difícil decidir quem você é diante de referências tão discrepantes.
Mas, na estória “o nitó que também era sankarah”, Ondjaki dá uma deixa de como se resolvia isso naquele tempo:

ondjaki
E o sorriso dele, esse já sem ser estilo de filme tipo país mais nenhum, mas esse sorriso dele simples, aberto, tipo angolano mesmo.
Ondjaki, em Os da minha rua, pagina 129
…tipo angolano mesmo. Tipo brasileiro mesmo. Tipo seilaoquê mesmo. Tipo você mesmo … Eureca!
A pulverização, pluralidade, e tudo que tem a ver com falta de pontos finais, virou a definição da nossa época. A gente parece protagonista, todo dia, de uma liquidação desarticulada de novas roupagens para nosso eu. Difícil pacas ser pós-moderno.
Só que igual o personagem do Ondjaki, a gente também tem uma essência. “óoo, grande novidade”, vocês aí do outro lado devem me responder. Mas, é verdade, meu povo. Por mais que a gente seja tão pitoresco, caleidoscopial e múltiplo, tem um pontinho lá no fundo que transcende tudo isso. E, como para o personagem, ele está muito ligado à nossa origem … Da onde viemos e para onde vamos. E, aqui, como sempre, faço minhas as palavras do C.S. Lewis:
Quanto mais deixarmos que Deus assuma o controle sobre nós, mais autênticos nos tornamos – pois foi Ele quem nos fez. (…) É quando me viro para Cristo e me rendo à sua personalidade, que pela primeira vez começo ter minha própria e real personalidade.
Ainda é complexo demais denominar quem eu sou realmente. E, com essa coisa de ter que decidir o que farei depois de ganhar o diploma, ficou mais complicado ainda. Mas, tenho aprendido, que as roupagens para nosso eu, sempre colocadas em liquidação, são nada mais que acessórios. Úteis apenas para compor o visual, jamais para cobrir nossa nudez …
O que, de fato, importa, é esse pontinho que, jamais, estará em liquidação, pois já foi comprado há mais de dois mil anos em um lugar chamado Calvário. È esse ponto de partida, apontado pelo Lewis, que define o “tipo você mesmo” que somos. E facilita muito na hora de ser pós moderno.
*akás: metralhadoras
Anotação do meu caderno de Conceitos da Bíblia Hebraica:
Entre o Êxodo (saída do Egito) e a posse da terra de Canaã (promessa) há um hiato: o deserto. O espaço intermediário entre a servidão e a hegemonia. Este é o lugar onde tudo que se teve é perdido. Mas, o deserto também pode revelar-se como o lugar onde tudo é ganho. È ali que o povo tem a outorga da Torah – por meio da qual poderiam, enfim, caminhar com D´us.
Embora o deserto seja seco, vazio e sem forma. Lugar onde nada do que tínhamos por valioso faz sentido, é aí que temos a chance de ressignificar nosso relacionamento com Deus. E, finalmente, encontrá-lO.
Selah.
Arquivado em: Fatos | Tags: Grey´s Anatomy, João 8:12, Luz, Raimundos, Rodolfo Abrantes
De nossas famílias herdamos o mesmo sobrenome. Mas, não devemos ser do mesmo tronco parental. Mesmo assim, a pergunta é quase inevitável quando me conhecem: “o que você acha da nova vida do outro Abrantes?”
Minha resposta apareceu semana passada bem no meio das páginas 52 e 53 da VEJA (Ed.2114/ 27 de maio de 2009) com as palavras do próprio Rodolfo. Questionado sobre o “fim” da carreira secular até 2001 em franca ascensão, o ex-Raimundos respondeu: “Não perdi a fama, eu a entreguei. Abri mão dos holofotes para ter uma vida simples e feliz ao lado de Jesus”.
Pra quem nunca teve fama, nem tanto dinheiro e, por isso, sempre mitificou ambas condições, a suposta “tranqüilidade” do R. Abrantes pode soar ultra estranha. Afinal, o cara era do Raimundos, levou as patricinhas a loucura com o “complicada-e-perfeitinha-você-me-apareceu …”, enfim, enfim. Como uma vida livre de coisas legais assim pode, de fato, ser feliz?

A última frase do episódio de hoje do Grey´s Anatomy, “I will follow you into the dark”, de certa forma, deu uma coordenada para solucionar a pergunta. O narrador disse algo como “todos nós temos um lado de sombras, e quando elas aparecem é preciso iluminá-las”.
Apesar de realmente não me lembrar da sentença correta , concordo com o roteirista do seriado da Sony. De fato, somos todos feitos da matéria escura e amedrontadora das sombras. Por mais que façamos coisas para sublimar essa condição, há tanto em nós que nos assusta. Tanto em nós que nos faz disformes, ocos, quase inúteis. Como uma boa sombra (no mal sentido) deve ser.
O bonito é que, apesar das pequenas velas que diariamente acendemos para tentar driblar nosso breu interior, Deus sempre teve consciência de nossa repleta escuridão e do quanto somos carentes do Holofote perene.
Por isso, sem pestanejar, Ele, em sua eterna Luminosidade, veio ao mundo para compartilhar com nós a chama que jamais se acaba. Quando caminhou por aqui (em corpo de gente), Ele disse “Eu sou a Luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a Luz da vida”.
Ao acender a Si mesmo dentro de nós, a Luz afugenta todas nossas sombras e nos permite ver com muita clareza quem na verdade somos. Isso é uma descoberta e tanto. Melhor que qualquer multidão de bilhões de pessoas gritando seu nome, cantando sua música ou elogiando seu texto.
Dá um barato imenso não se sentir mais corroído por essa substância amorfa que é a sombra. Dá uma imensa liberdade finalmente descobrir quem você é, de onde veio e para onde vá. Questão de leveza, sabe?
Por isso, dizer: “gente, entreguei minha fama, meu senso de controle, meus planos, minha vida”, não me soa mais como loucura. Mas, como perfeita sanidade.




