
Murilo Mendes
Se nossas ações pudessem ser resumidas em uma palavra, a desinência mais coerente talvez fosse busca. Com ou sem um alvo certo, podendo ou não nomeá-lo, é fato que o tempo todo, em todas as épocas, nós, mortais, vagamos sempre à procura …
Ano passado, fui apresentada (por uma das minhas roomies) ao poeta mineiro Murilo Mendes, um dos principais referenciais do grupo de poetas da primeira metade do século passado que buscava restaurar a poesia em Cristo.
Surrealista e cristão, Mendes teve sua primeira miragem poética revelada não entre as formas de uma linda mulher ou em meio a qualquer outra estrutura terrena, mas em uma estrutura celeste – a figura do cometa Halley em sua aparição em 1910. O mineiro de Juiz de Fora tinha então 9 anos.
Após um período de pouco norte em sua poética, Mendes enveredou pelo “bom caminho” e passou a traduzir em poemas aquilo que a passagem do cometa Harley pela Terra significava: A junção (ainda que momentânea) entre divino e terreno.
Ele, contudo, apenas se aproximou do cristianismo na década de 1920, por influência do artista Ismael Nery e do escritor Jorge de Lima. E foi justamente o sistema filosófico proposto por Nery que fundamentou parte da lógica poética de Murilo. De acordo com a teoria do Essencialismo, como ele chamava, a arte deveria figurar uma realidade que não existe na prática para assim despertar no homem a ideia de que a realidade como hoje é, na verdade, não é aquela que deveria ser.
É por essa realidade-que-deveria-ser que nós, o tempo todo, estamos à procura. Apesar de ser multiforme e, muitas vezes, inconsciente, essa busca revela a origem e molde comum à todos nós.
Na busca por essa essência, o poeta encontrou Cristo, o Deus encarnado, como o primeiro fundamento para toda a vida. “Místico, ele perfura a crosta das instituições e dos costumes culturais para morder a cerne da linguagem religiosa, que é sempre ligação do homem com a totalidade”, escreveu Alfredo Bosi em seu História Concisa da Literatura Brasileira.
(continua)
1 resposta Até agora ↓
… pobres necessários ao ritmo divino « Mais que Linguagem // Dezembro 21, 2009 às 23:01 |
[...] (Murilo Mendes, REZA em Poemas, 1930, p.27) [...]