Mais que Linguagem


Caos sereno
Abril 13, 2009, 2:35
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flywheel_desktop1_1260A gente matutou até não poder mais. Como expressar aquela sensação de tristeza, mas que ao mesmo tempo é alegria?

Complexo.

Às vezes a vida é tão dura. É um caminhar na penumbra, uma sensação de andar sem chão, um peso da espera que faz os ombros formigarem de tanta dor, uma fermata que jamais termina, uma pausa que coloca todo o universo em silêncio e aponta para um horizonte tão, tão informe …

Diante de tanta incerteza é quase impossível manter o sorriso forte no rosto.

Mesmo assim, se ele não permanece (inexplicavelmente) pelo menos dentro da gente uma porção de paradoxos formam sentimentos ininteligíveis para nossos vãos entendimentos.

Vem a tristeza, mas sempre (sempre) fica a esperança. E a esperança nos enche de uma leveza estranha, uma doçura, uma calma, uma certeza tão sem forma, mas tão certa …

Damos a luz a um caos sereno.

As duas palavras apareceram juntas lá pela uma hora e pouco do filme “A Virada” (Flywheel). Primeira produção da dupla de irmãos que produziu o clássico Desafiando os gigantes, o longa conta a história de Jan Austin, um vendedor de carros que abusa da sua retórica para superestimar os valores de seus veículos.

Após uma porção de chacoalhões, Austin faz jus ao título do filme e muda a roda da própria vida. Como resultado perde o controle e chão que todo pai de família prefere ter. Mas, na roda do caos e da angústia, ele permanece sereno e em paz…

O roteiro do filme é bem típico de principiantes. Redundante, repleto de falas e tomadas desnecessárias e enquadramentos experimentais demais. Mesmo assim, vale a pena.

Nem que seja para desligar a tevê cheio de sorrisos por conseguir nomear mais uma confusão interior… e se encher de mais certeza informe. Para mim, foi um máximo finalmente humanizar mais uma parte de mim …



Menino, quer equilibrar um livro?
Abril 2, 2009, 17:26
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De camiseta do São Paulo (sim, minha gente, nada de Timão), ele às 9h34 em ponto dessa quinta 2 de abril reluzia seis bolas de prata de mentira nas duas mãos – não muito maiores que as minhas. Os cinqüenta e três pêlos no bigode recém nascido ainda não davam o esperado ar de homem, másculo, senhor. Para sua frustação, faziam-no mais menino-adolescente ainda.

As duas mãos, os dois olhos e as seis bolas de prata de mentira exercitavam acrobacias entre a inércia dos carros no semáforo da Vital. Bem, ali, ao lado da futura frustrada estação. “Se eu tivesse cinqüenta centavos, estivesse de carro e com os vidros abertos …”, pensei.

O jornalista da Revista Nova Escola (que também é um dos fundadores do Projeto Redigir da ECA), Rodrigo Ratier, tem carro com vidros abertos. Mas substituiu os centavos por livros, nessa sentença e ocasião. Em matéria na edição desse mês, ele conta que pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à fome, divulgada ano passado, revelou que apenas 15% dos moradores de rua do Brasil nunca estudaram.

Para comprovar isso, Ratier narra a reação de um vendedor de balas de 20 anos ao saber que ao invés de dinheiro, ele daria um livro:

“- Tem aí algum do Sidney Sheldon? Era o que eu mais curtia quando estava na cadeia. Foi lá que aprendi a ler.
Na ausência do célebre novelista americano, o critério de seleção se tornou mais simples.
Vitor pegou o exemplar mais grosso da caixa (…)”

Não sei se o menino das bolas reluzentes de prata de mentira algum dia cruzou com Ratier. Só sei que hoje, após finalizar o espetáculo com um incrível rodopio de equilíbrio, guardou as seis na palma da mão e estendeu uma caixa com jeitão de cofrinho em papel de presente rosa-azul bebê. Deve ter ganhado uns sessenta centavos. Nenhum livro.

Quando eu tiver meu carro (e perder o medo do transito), vou parar todo dias as 9h34 em ponto ao lado da futura frustada estação. Para pagá-lo com um livro.

Por enquanto, nenhuma ideia de qual. Você tem alguma sugestão?