De camiseta do São Paulo (sim, minha gente, nada de Timão), ele às 9h34 em ponto dessa quinta 2 de abril reluzia seis bolas de prata de mentira nas duas mãos – não muito maiores que as minhas. Os cinqüenta e três pêlos no bigode recém nascido ainda não davam o esperado ar de homem, másculo, senhor. Para sua frustação, faziam-no mais menino-adolescente ainda.
As duas mãos, os dois olhos e as seis bolas de prata de mentira exercitavam acrobacias entre a inércia dos carros no semáforo da Vital. Bem, ali, ao lado da futura frustrada estação. “Se eu tivesse cinqüenta centavos, estivesse de carro e com os vidros abertos …”, pensei.
O jornalista da Revista Nova Escola (que também é um dos fundadores do Projeto Redigir da ECA), Rodrigo Ratier, tem carro com vidros abertos. Mas substituiu os centavos por livros, nessa sentença e ocasião. Em matéria na edição desse mês, ele conta que pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à fome, divulgada ano passado, revelou que apenas 15% dos moradores de rua do Brasil nunca estudaram.
Para comprovar isso, Ratier narra a reação de um vendedor de balas de 20 anos ao saber que ao invés de dinheiro, ele daria um livro:
“- Tem aí algum do Sidney Sheldon? Era o que eu mais curtia quando estava na cadeia. Foi lá que aprendi a ler.
Na ausência do célebre novelista americano, o critério de seleção se tornou mais simples. Vitor pegou o exemplar mais grosso da caixa (…)”
Não sei se o menino das bolas reluzentes de prata de mentira algum dia cruzou com Ratier. Só sei que hoje, após finalizar o espetáculo com um incrível rodopio de equilíbrio, guardou as seis na palma da mão e estendeu uma caixa com jeitão de cofrinho em papel de presente rosa-azul bebê. Deve ter ganhado uns sessenta centavos. Nenhum livro.
Quando eu tiver meu carro (e perder o medo do transito), vou parar todo dias as 9h34 em ponto ao lado da futura frustada estação. Para pagá-lo com um livro.
Por enquanto, nenhuma ideia de qual. Você tem alguma sugestão?
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Três sugestões:
Comentário por ANA CAROL LORENTE Abril 2, 2009 @ 18:30Crônicas de Narnia
Moby Dick
O pequeno príncipe
Tenho também outra sugestão…
Comentário por ANA CAROL LORENTE Abril 2, 2009 @ 18:34Uma biblioteca móvel… dentro do ônibus. Um projeto que já existe aí em São Paulo, mas que precisa de divulgação e apoio para que possa ser ampliado:
http://portal.prefeitura.sp.gov.br/secretarias/relacoes_internacionais/carteira_de_projetos/cultura_esporte_e_lazer/0005
Sim, Carol! Já fiz uma matéria sobre o assunto. PAra quem quiser conferir: http://www.usp.br/espacoaberto/arquivo/2008/espaco96out/0cultura.htm
Comentário por Talita Abril 2, 2009 @ 20:29Quase não tenho mais certezas nesse mundo, mas uma tenho: q todo menino deveria ler o ‘Pequeno Príncipe’. Sobretudo quando se trata de meninos que fazem acrobacias com bolas de prata.
Comentário por bartiraferraz Abril 3, 2009 @ 19:32Lembro que eu adorava os livros da série vagalume eheheheheh, mas optaria por romances que abordam política por exemplo, e livros que inspirem no leitor um desejo de estudar alguma profissão por exemplo.
Comentário por Glauber Abril 6, 2009 @ 15:29