
Semana Jovem IBAB
Começou ontem, 14 de julho. Mas ainda dá tempo de conferir a Semana Jovem da IBAB, que termina sexta, dia 17. O tema? Você tem sede de quê? Você tem fome de quê? - descaradamente baseado na clássica Comida (A. Antunes). Abaixo vídeozinho retrô com participação especial da Marisa Monte.
Arquivado em: Literatura, Uncategorized | Tags: angola, identidade, ondjaki, pós-modernidade
Ao som de Norah Jones e Melody Gardot, terminei hoje de ler Os Da Minha Rua, do angolano Ondjaki.
Contextualizando: Ondjaki é um dos escritores contemporâneos de Angola mais mais. Tem drads na cabeça. Uma pinta do lado esquerdo do rosto bem feito. Trinta e dois anos. Doze livros. Um documentário, Oxalá cresçam pitangas – histórias de Luanda (2006). Ganhou ano passado o Grinzane for Africa Prize, na categoria Jovem Escritor. E, sobretudo, é dono de uma sensibilidade literária de fazer perder o fôlego.
Em Os Da Minha Rua, ele narra a Angola do fim dos anos 80, início dos anos 90, sob os olhos dele mesmo quando criança. Embora carregadas de referências históricas, regionais e pessoais, as estórias do livro trazem um quê de universal. Resumem esse nosso comum e intermitente trajeto rumo a descoberta de quem realmente somos.
Depois de anos debaixo do domínio lusitano, Angola, durante as últimas décadas do século 20, teve que perceber na marra que crise de identidade não era frescura de adolescente. O sincretismo cultural dava o tom das relações em Luanda. Era a novela Roque Santeiro na tevê, os uniformes e akás* soviéticas nas ruas, o Roberto Carlos no rádio, os professores cubanos nas escolas e a coca-cola na mesa. Difícil decidir quem você é diante de referências tão discrepantes.
Mas, na estória “o nitó que também era sankarah”, Ondjaki dá uma deixa de como se resolvia isso naquele tempo:

ondjaki
E o sorriso dele, esse já sem ser estilo de filme tipo país mais nenhum, mas esse sorriso dele simples, aberto, tipo angolano mesmo.
Ondjaki, em Os da minha rua, pagina 129
…tipo angolano mesmo. Tipo brasileiro mesmo. Tipo seilaoquê mesmo. Tipo você mesmo … Eureca!
A pulverização, pluralidade, e tudo que tem a ver com falta de pontos finais, virou a definição da nossa época. A gente parece protagonista, todo dia, de uma liquidação desarticulada de novas roupagens para nosso eu. Difícil pacas ser pós-moderno.
Só que igual o personagem do Ondjaki, a gente também tem uma essência. “óoo, grande novidade”, vocês aí do outro lado devem me responder. Mas, é verdade, meu povo. Por mais que a gente seja tão pitoresco, caleidoscopial e múltiplo, tem um pontinho lá no fundo que transcende tudo isso. E, como para o personagem, ele está muito ligado à nossa origem … Da onde viemos e para onde vamos. E, aqui, como sempre, faço minhas as palavras do C.S. Lewis:
Quanto mais deixarmos que Deus assuma o controle sobre nós, mais autênticos nos tornamos – pois foi Ele quem nos fez. (…) É quando me viro para Cristo e me rendo à sua personalidade, que pela primeira vez começo ter minha própria e real personalidade.
Ainda é complexo demais denominar quem eu sou realmente. E, com essa coisa de ter que decidir o que farei depois de ganhar o diploma, ficou mais complicado ainda. Mas, tenho aprendido, que as roupagens para nosso eu, sempre colocadas em liquidação, são nada mais que acessórios. Úteis apenas para compor o visual, jamais para cobrir nossa nudez …
O que, de fato, importa, é esse pontinho que, jamais, estará em liquidação, pois já foi comprado há mais de dois mil anos em um lugar chamado Calvário. È esse ponto de partida, apontado pelo Lewis, que define o “tipo você mesmo” que somos. E facilita muito na hora de ser pós moderno.
*akás: metralhadoras
Anotação do meu caderno de Conceitos da Bíblia Hebraica:
Entre o Êxodo (saída do Egito) e a posse da terra de Canaã (promessa) há um hiato: o deserto. O espaço intermediário entre a servidão e a hegemonia. Este é o lugar onde tudo que se teve é perdido. Mas, o deserto também pode revelar-se como o lugar onde tudo é ganho. È ali que o povo tem a outorga da Torah – por meio da qual poderiam, enfim, caminhar com D´us.
Embora o deserto seja seco, vazio e sem forma. Lugar onde nada do que tínhamos por valioso faz sentido, é aí que temos a chance de ressignificar nosso relacionamento com Deus. E, finalmente, encontrá-lO.
Selah.


