Mais que Linguagem


Medo de empresa fantasma e de silêncio
Setembro 20, 2009, 1:00
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No meio dos escândalos do Collor e PC Farias, no início dos anos 90, eu inventei de ter medo de empresa fantasma.

Meus pais, que só recentemente entenderam a razão dos meus constantes berros de madrugada, dedicaram, na época, uma das horas de historinha para a leitura do livro Barulhinhos do Silêncio, da Sonia Salerno Forjaz, sobre um menininho que morria de medo dos ruídos amplificados pelo silêncio na calada da noite.

Aos poucos, a historinha e outros didatismos criados pelos meus pais (entre eles, o presente de aprender a orar a noite) espantaram meu medo de empresas fantasmas, sombras em forma de faca e de sonhar com caixão.

Ficou só o medo do silêncio.

Feito de pretenso nada, ele frustra minha tendência de humanizar tudo que me cruza e, ao mesmo tempo, denuncia ruídos de fundo que teimam destoar minha quase harmoniosa melodia.

Nessas horas, o impulso é aumentar o som do mundo para uns mil decibéis. Quem sabe surdo, meu coração abafe ou não se incomode mais com sons difíceis de lidar?

Contra eu mesma, no entanto, estou tentando segurar o botão de volume do mundo e de mim. Talvez, com o Silêncio, eu aprenda a transformar ruídos em melodia.

(mais…)



… pobres necessários ao ritmo divino
Setembro 15, 2009, 22:49
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Fórmas brancas de arcanjos que se movem
Em procissões desordenadas dentro de mim,
fóra de mim!
A terra cheia de mulheres tão bonitas
Guarnecendo as ruas, as casas, os cemitérios,
Mulheres feias guarnecendo as ruas e os astros,
Pensamentos escondidos lá onde quasi acaba a lembrança
Anúncios luminosos que o homem fica parado
E esquece de tratar da salvação da alma,
A terra está cheia de pobres necessários ao ritmo divino,
Cheia de amor que chega para todos os homens.
Músicas continuas tocam a manivela nas entranhas do mundo
E o homem elástico de assombração, de músicas, de futuro,
Fabrica maquinas que desviam ele dos pensamentos primários.
Nem a largura nem o comprimento nem a espessura nem o tempo
Não me impedirão de me agarrar num gancho do céu
Porque grandes anjos brancos mexendo dentro de mim e fora de mim
Me dão de vez em quando o desfalecimento único,
Principalmente aquele que vem lá de longe,
Que despenca do Cruzeiro do Sul,
Enorme cheiroso sobre mim.

(Murilo Mendes, REZA em Poemas, 1930, p.27)

Dessa vez, me esforcei para apagar o que de humanizado há em mim. Desacelerei  o passo, baixei o volume da minha música. Assoprei cada uma das velas que carrego como amuleto.

Sussurrei pelo Seu silêncio.

só ouvi o vento.

entendi. Você já estava ali.

“Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor!” (Romanos 8:38,39)



Saudade e plenitude
Setembro 12, 2009, 19:29
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Os dois novos integrantes da família ainda cabem direitinho no ângulo agudo formado pelo meu cotovelo, braço e antebraço direitos. Mas, eu sei. Logo, logo eles serão tão imensos que minha retina vai ser pequena para medi-los.

O Mateus, com seus quase dois anos, ainda olha pra mim com olhos de quem vê a prima mais linda do mundo. Mas, eu sei. Logo, logo ele vai ter a primeira professora da escolinha.

Antes de ontem eu lamentava ser a quase única menina da família. Ontem eu adorava ter os primos mais gatinhos da igreja. Hoje, não preciso mais inventar brincadeiras suficientemente interessantes para competir com o futebol, nem me preocupar em saber se as meninas querem ser minhas amigas ou se só estão interessadas neles.

A gente cresceu.

E, depois de tantas promessas de que estaríamos presentes nas vidas uns dos outros pra sempre, descobrimos que novos personagens e cenários ocupariam tanto nosso tempo que, de repente, seríamos apenas encontros fortuitos, cumprimentos sorridentes por orkut e conversas corridas no MSN.

É a vida, meus amores, a vida …

… e a saudade, por isso, dividem-se dentro de mim.

Primos no meu primeiro aniversário

Primos no meu primeiro aniversário

Espalhadas na mesa, as lembranças, dessa vez, contudo, não confluíram em melancolia. Talvez eu esteja aprendendo que, embora dolorida e quase sufocante, a saudade é um excelente indicador de que tem valido a pena viver. De que, à sua maneira e no tempo que lhes é permitido, cada pessoa ou momento, que cruzam meu caminho, têm contribuído para a Plenitude em mim …

Saudade é vestígio de sonhos vencidos; um resíduo, por vezes inclemente, de vidas bem vividas (Ricardo Gondim, via Twitter)




Sobre a morte, vida e os resíduos
Setembro 5, 2009, 23:29
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Sem qualquer pretensão cult, há algumas semanas, assisti ao filme Horas de Verão, do francês Olivier Assayas. Era dia de promoção na Reserva Cultural e, apesar do coletivo encharcamento de vestidos, meias finas e bolsas, a sala 4 estava lotada. Mas, ninguém se incomodou com o velhinho que não parava de tentar sussurros no ouvido da velhinha dele, duas filas à frente.

Pelo jeito, estavam  impressionados com a frase dita por Hélène, a matriarca de uma família de três filhos , na primeira das duas únicas cenas com pouco sol: “Quando  morrer, não irei sozinha. Levarei segredos, conhecimento, lembranças. O que ficam são os resíduos …”.

Suspirei.

Vinte e três anos após chegar ao mundo, na reta final da (talvez) primeira faculdade e dando as primeiras engatinhadas na vida adulta de verdade, tenho pensado no que farei dos (longos ou curtos) minutos que se estendem do agora até o ponto final do que é terrestre em mim.

Mas, é difícil decidir-se.

Na berlinda estão em jogo as promessas luminosas de um futuro sob o controle de minhas próprias mãos. Lado a lado com a verdade de que minhas certezas são como vento, que meus tão pequenos olhos ainda não sabem enxergar o horizonte inteiro, de que as coisas a que fortemente me agarro são nada mais que resíduos,

de que eu, Eu mesma sou pó …

Helenè

Helenè

Decididos o destino dos resíduos de Hélène e a maneira como cada personagem se organizou diante de seu fim, as luzes da sala 4 da Reserva Cultural se acenderam. Sorridente, minha amiga perguntou se eu tinha gostado ou morrido de tédio. Muito gracinha, respondi com mais alguns comentários sobre cinema europeu.

Duas filas à frente, o velhinho e a velhinha, de mãos dadas, saíam leves, quase livres. Eram os únicos que não tentavam fugir da ideia dos resíduos.

mas, quando pensei em todas as coisas que havia feito e no trabalho que tinha tido para conseguir fazê-las, compreendi que tudo aquilo era ilusão, não tinha nenhum proveito. Era como se eu estivesse correndo atrás do vento“. (Ec 2:11)

“Senhor, ensina-me a contar os meus dias para que eu possa ter um coração sábio” (Sl 90:12)

Por Talita Abrantes