Arquivado em: Filmes, Papo | Tags: cinema europeu, Eclesiastes, finitude, futuro, Horas de Verão, morte, Olivier Assayas, vida
Sem qualquer pretensão cult, há algumas semanas, assisti ao filme Horas de Verão, do francês Olivier Assayas. Era dia de promoção na Reserva Cultural e, apesar do coletivo encharcamento de vestidos, meias finas e bolsas, a sala 4 estava lotada. Mas, ninguém se incomodou com o velhinho que não parava de tentar sussurros no ouvido da velhinha dele, duas filas à frente.
Pelo jeito, estavam impressionados com a frase dita por Hélène, a matriarca de uma família de três filhos , na primeira das duas únicas cenas com pouco sol: “Quando morrer, não irei sozinha. Levarei segredos, conhecimento, lembranças. O que ficam são os resíduos …”.
Suspirei.
Vinte e três anos após chegar ao mundo, na reta final da (talvez) primeira faculdade e dando as primeiras engatinhadas na vida adulta de verdade, tenho pensado no que farei dos (longos ou curtos) minutos que se estendem do agora até o ponto final do que é terrestre em mim.
Mas, é difícil decidir-se.
Na berlinda estão em jogo as promessas luminosas de um futuro sob o controle de minhas próprias mãos. Lado a lado com a verdade de que minhas certezas são como vento, que meus tão pequenos olhos ainda não sabem enxergar o horizonte inteiro, de que as coisas a que fortemente me agarro são nada mais que resíduos,
de que eu, Eu mesma sou pó …

Helenè
Decididos o destino dos resíduos de Hélène e a maneira como cada personagem se organizou diante de seu fim, as luzes da sala 4 da Reserva Cultural se acenderam. Sorridente, minha amiga perguntou se eu tinha gostado ou morrido de tédio. Muito gracinha, respondi com mais alguns comentários sobre cinema europeu.
Duas filas à frente, o velhinho e a velhinha, de mãos dadas, saíam leves, quase livres. Eram os únicos que não tentavam fugir da ideia dos resíduos.
“mas, quando pensei em todas as coisas que havia feito e no trabalho que tinha tido para conseguir fazê-las, compreendi que tudo aquilo era ilusão, não tinha nenhum proveito. Era como se eu estivesse correndo atrás do vento“. (Ec 2:11)
“Senhor, ensina-me a contar os meus dias para que eu possa ter um coração sábio” (Sl 90:12)
Por Talita Abrantes
5 Comentários até o momento
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O texto seu mais profundo que já li. Tropecei nele. E estou olhando até agora pra ver o que era.
Comentário por Bartira Ferraz Setembro 6, 2009 @ 12:51Ah! Essa Talita… tão hábil com as palavras!
Encontrou com suavidade e clareza a essência.
Grande e singelo momento!
Comentário por silvia hudaba Setembro 6, 2009 @ 15:07Ainda bem que eu tava lá para ver acontecer!
Estou ainda sem saber o que aconteceu ao ler. Acredito que novamente voce conseguiu me fazer ver algo a mais, e assim tem por certo o titulo de autora.
Comentário por Maria Carolina Setembro 6, 2009 @ 20:05Como sempre, excelente.
Escreva logo um livro para eu poder dizer para os outros que vc é a minha escritora preferida!
beijos!
Comentário por VanessaD' Setembro 7, 2009 @ 23:08Espero que dedique uns vários minutos entre o agora e o ponto final do que é terrestre em você para continuar a escrever essas linhas cada vez melhores e mais inspiradas
Comentário por Thiago Schiefer Setembro 8, 2009 @ 15:08